
Quando falamos de gêneros literários, estamos dizendo de textos que são parecidos na sua forma de relato, narração[1]. Em relatos de assunção ou de ascensão[2], o herói desaparece de forma fantástica: vivo, ele passa a pertencer o mundo divino. Estamos nos referindo a textos que trazem o seguinte formato. Veja o exemplo da personagem Enoque (Gn 5.24[3]):
·
E
andou Enoque com Deus;
·
e
não apareceu [mais],
·
porquanto
Deus [para si] o
tomou.
O primeiro elemento pertence a historia da personagem,
anteriormente narrada; o segundo elemento é a elevação/arrebatamento que
confirma sua comunhão com Deus. O último elemento é a continuidade da vida da
personagem no mundo divino.
O desaparecimento fantástico da personagem cria a espera da sua volta, e tal espera se prolonga indefinidamente no tempo, ultrapassando séculos. Elias (profeta do séc. IX a.C.) é um exemplo dessa espera, pois a tradição judaica diz que Elias traria o messias. Uma das canções tradicionais de páscoa diz:
“Elias, o profeta
Elias, o tesbita
Elias, o gaaladita
Que nos venha depressa
Com o messias.”[4]
Outro personagem que tem uma “assunção às avessas” é Moisés com seu enterro (se bem que temos no Novo Testamento a citação de Judas sobre sua assunção[5]).
A ASCENÇÃO DE JESUS AOS MOLDES DE ELIAS
Elias, o representante de Javé, tem sua ascensão muito
parecida com a de Jesus. Elias é visto somente por seu discípulo, Eliseu.
Jesus, por seus discípulos. O recebimento da capa por Eliseu é o mesmo que
acontece com os discípulos de Jesus quanto ao recebimento do espírito que
repousava sobre ele, o Espírito Santo.
[1] Em
crítica literária, o termo às vezes é usado como sinônimo de história, fábula,
ação. MASSAUD, M., Dicionário de termos literários, 5ª ed., 1988, p.355,
Editora Cultrix.
[2] A
diferença é semântica e foi assumida definitivamente pela teologia: Jesus
ascendeu, isto é, subiu pelas próprias forças; outros personagens foram
assuntos.
[3] Bíblia ACF
[4]
COMAY, J., Quem é quem no Antigo Testamento, 1998, p. 104, Imago editora.
[5]
Judas v.9