terça-feira, 7 de abril de 2020

O Êxodo de Abrão e Sarai como prolepse de um marco fundante: Gn 12.10-13.1a


A prolepse constitui uma figura de estilo mediante a qual se adianta o enunciado de um epíteto, um argumento ou uma ação, como se já tivesse ocorrido a circustância que lhe diz respeito e que necessariamente os precederia[1]. Há dois tipos de prolepse: um é ligado ao tempo da narrativa. O outro ocorre quando um orador responde previamente uma eventual objeção como em Jr 7. 4.
No caso de Abrão e Sarai o que temos é uma prolepse ligada ao tempo da narrativa, muito parecido com o que ocorre nos evangelhos[2].
O êxodo é o marco fundante da religião de Israel e de seu povo e por isso a prolepse acontece logo no início da chamada de Abrão com o texto narrativo e mais tarde ela volta quando o pensamento de Deus é revelado pelo autor ao Abrão dormente aos seus ouvintes/leitores em Gn 15. 13, 14.

Pontos de contato

Os pontos narrativos de contato são:
·         Fome e ida ao Egito
·         sofrimento
·         punição
·         liberdade
·         bens adquiridos
Fome é o que leva Abrão ao Egito e também Jacó e todo seu clã familiar. O sofrimento de Sarai nas mãos de Faraó é representado no amargor da escravidão do povo. A punição divina com pragas é novamente apresentada pelas pragas no Egito. A liberdade é adquirida mediante punições. Bens são doados a Abrão e ao povo para que fossem embora o mais presto possível.
A prolepse tem a função de fazer com que o leitor/ouvinte tenha sempre na memória pontos muito importantes numa metanarrativa.



[1] MOISÉS, M. Dicionário de termos literários, 5ª ed., 1988, p.417, 18, Editora Cultrix.
[2] Nos evangelhos, a narrativa da paixão é sempre antecipada por Jesus em seus discursos e ensinamentos (Mc 8.31).