O
EVANGELHO DE MARCOS
Começando pelo Evangelho de Marcos, vamos
pesquisar coisas importantes para o conhecimento público. Uma forma de poder
ajudar amigos e desconhecidos que visitam o blog para saber curiosidades sobre
a Bíblia, algum texto específico ou até mesmo satisfazer curiosidade. Então
vamos lá!
EVANGELHO
No uso lingüístico geral entre os cristãos, a
palavra "evangelho" designa duas grandezas distintas: 1) a mensagem
cristã e 2) um livro intitulado de Evangelho, isso é, um livro que
relata a respeito da vida e atuação, sofrimento, morte e ressurreição de Jesus.
Esse segundo uso, o uso literário, encontra-se pela primeira vez no séc. II,
não, porém, no Novo Testamento[1]. Como
aconteceu que as exposições literárias da história terrena de
Jesus receberam o nome de Evangelho, respectivamente Evangelhos, que o conciso
conceito teológico se transformou em designação literária? Não é possível
esclarecer completamente esse processo, e ele evidentemente também não ocorreu
em linha reta. Em todo caso, não é correto afirmar que (no NT) tanto a história
de Jesus quanto a da mensagem cristã foram colocados sob o conceito maior
'evangelho'. Somente uma única vez no NT a história de Jesus é colocada sob
esse conceito maior, por Marcos - "Princípio do Evangelho de Jesus Cristo"
(1.1) -, que com isso de fato interpreta a descrição escrita dessa história
como pregação salvífica[2]. Por
volta de meados do séc. II manifesta-se um fenômeno contraditório. Por um lado,
ainda não se emprega uma designação uniforme para as exposições da história de
Jesus, embora seu número crescesse paulatinamente[3]. O
gênero literário aqui em questão, provavelmente não recebeu um "nome"
literário por seu presumido criador Marcos, e demorou cerca de 80 anos até que
recebeu sua denominação literária definitiva. Como isso aconteceu não pode mais
ser comprovado por documentos. Deve-se pressupor um uso lingüístico comum que
foi se impondo, para entender e denominar as exposições literárias da história
de Jesus como "Evangelho"[4].
AUTOR
O evangelho segundo Marcos é uma obra que quis
ficar anônima. Quando o autor recebeu uma pregação de Jesus e sobre Jesus, que
traduziu em um relato de vida, sua personalidade se apagou diante da autoridade
da mensagem a ser comunicada, o Evangelho[5].
A importância dada a essa reserva põe a questão da identidade de Marcos em seu
justo lugar. A subscrição “segundo Marcos” (κατά Μάρκον), um nome de origem
romana muito difundido, é secundaria; atestada desde Ireneu (fim do século II),
ela reflete novas condições de recepção. Para situar esse relato, toda a tradição
patrística se apoiou no testemunho de Papias, bispo de Hierápolis, na Frigia,
reportado por Eusébio de Cesaréia. Comentando a afirmação de um presbítero João,
Papias qualifica Marcos de intérprete de Pedro (mas em que sentido? tradutor?
comentador?) que fez uma obra de memória das palavras e dos atos do Senhor sem
omissão nem mentiras, escrevendo sem ordem mas com exatidão (sua memória era
seletiva ou sem defeito?). Ao lado das questões que suscita, essa atestação
parece apologética; tem a intenção de ligar os evangelhos, mesmo indiretamente,
à figura de um apóstolo e não pode, portanto, ser tomada ao pé da letra. O próprio
conteúdo do relato faz o olhar deslizar do autor para os destinatários do
evangelho: este se explica muito mais como resposta às questões das comunidades
às quais se dirige do que como testemunho ocular direto. A referência a Papias,
entretanto, sustentou a hipótese de Marcos ter escrito em Roma depois da morte
de Pedro[6].
No Novo Testamento, é em 1 Pedro, ele mesmo um escrito pseudepigráfico, que
Marcos é associado a Pedro como “meu filho”, cujas saudações o autor da carta
envia junto com as da comunidade de Roma (5,13). A tradição eclesiástica
identificou Marcos com João Marcos, um judeu-cristão da comunidade de Jerusalém,
discípulo de Pedro, de que falam os Atos (12,12), e primo de Barnabé, segundo
Cl 4,10; João Marcos foi companheiro de missão de Paulo e Barnabé desde
Antioquia até uma separação que Paulo se recusará a anular (At 13,3; 15,37-39).
As pastorais o mencionam como associado a Paulo (2Tm 4,11). Filêmon 24 indica
Marcos junto de Paulo entre outros colaboradores, entre os quais Lucas[7].
LUGAR
A tradição, e já Clemente de Alexandria,
localizou o evangelho em Roma. Nada no texto permite, realmente, confirmá-lo ou
infirmá-lo. É verdade que se notam latinismos (sobretudo em termos militares ou
monetários, como a tradução de lepta por quadrante romano, 12,42); mas na época esses
latinismos parecem ter passado para a linguagem corrente do grego helênico. A
montante, a coleção de tradições diversas que Marcos herdou, a jusante o fato
de Mateus e Lucas o terem logo conhecido e reconhecido sua autoridade, a ponto
de utilizá-lo como uma de suas fontes comuns, pleiteiam um centro urbano e
eclesial de certa irradiação. Isso vale para Roma, mas não exclusivamente;
Alexandria, no Egito, Antioquia, na Síria, foram também sugeridas. Por causa do
interesse do evangelho pela Galiléia — onde Jesus começa a proclamar o
Evangelho e que percorre em todos os sentidos, e onde o Ressuscitado espera
pelos seus —; por causa de sua fidelidade a uma tradição antiga, que acatou,
localizando os saduceus no Templo e os escribas em Jerusalém, como antes de 70,
ao passo que Mateus e Lucas ampliam o lugar com as primeiras comunidades
palestinenses, alguns pesquisado- res chegaram mesmo a defender a idéia de uma
origem na Galiléia. Roma permanece, entretanto, como a hipótese privilegiada[8].
DATA
Para a datação, é o capítulo 13 — o grande discurso que anuncia o fim dos
tempos a partir da destruição do Templo de Jerusalém — que é tomado como ponto
de referência. Ele lembra um discurso de adeus, que dá ao presente precário das
comunidades às quais o evangelho se dirige a condição de um anúncio profético
do Senhor. Esse texto reflete um período conturbado, conforme as informações que
nele podemos respigar — clima tenso, profanação do lugar santo (“Quando virdes
o Abominável Devastador instalado onde não deve”, v. 14), urgência de proclamar
o Evangelho às nações (v. 10), diante dos tribunais (v. 11), pretensões messiânicas
(vv. 5-7; 22). Mas tudo isso pode tanto falar da primeira Guerra Judaica
(66-70), que terminou com a tomada de Jerusalém por Tito e o incêndio do
Templo, como visar à escatologia e depender de temas apocalípticos segundo os
clichês bíblicos. Que parte atribuir a cada um desses pontos de vista? É preferível
focalizar a atualidade ou a Parusia? O apelo à vigilância, dirigido a todos,
com o qual termina o discurso, é sem dúvida urgido pelos acontecimentos da
guerra. Mas a alusão a esta limita-se ao conflito palestino ou integra também
um eco dos distúrbios em Roma, nessa mesma época, com o incêndio da cidade pelo
qual Nero culpa os cristãos e a guerra civil que se segue à morte do imperador?
O sinal de alarme que o martírio de Pedro talvez tenha significado para os
crentes pode ter levado a consignar por escrito as tradições sobre Jesus.
Portanto, a data de 70, num clima de efervescência apocalíptica, é
majoritariamente mantida, seja logo antes, ou logo depois, conforme se suponha
a queda de Jerusalém iminente ou já realiza- da. As alusões à violência desse
desfecho são menos nítidas do que em Mateus (22,7, p. ex.), o que faria pender
para antes[9].
PÚBLICO ALVO
Quanto à origem religiosa do público alvo, é a
ausência de reflexão profunda sobre a Torá, ao contrário do evangelho de
Mateus, que leva a pensar em pagãos-cristãos. A importância dos deslocamentos
de Jesus nos territórios limítrofes de Tiro e de Sídon, de Cesaréia de Filipe
e, mais ainda, francamente do outro lado do lago da Galiléia, na Decápolis, apóia
esta hipótese. Ela é confirmada pontualmente pela tradução necessária de usos e
costumes judaicos desconhecidos dos leitores (7,1-4, sobre os rituais de
purificação). Mas a imprecisão histórica nessas mesmas explicações não chega,
em geral, a induzir que o próprio autor seja pagão-cristão; como judeu de
origem, pode-se imaginá-lo a certa distância das autoridades religiosas e das
instituições de seu tempo, o que lhe dá uma certa flexibilidade de visão. A
atenuação dos costumes pode, aliás, se explicar também pelo ângulo polêmico dos
debates encenados pela narração. A figura do autor se delineia, assim, como um
judeu-cristão da segunda geração, falando o grego, aberto à missão universal,
que escreve para pagãos-cristãos de uma comunidade, se não romana, pelo menos
do mundo ocidental[10].
[1]
VIELHAUER,
P., História da literatura cristã primitiva: Introdução ao Novo Testamento, aos
Apócrifos e aos Pais Apostólicos., 2005, São Paulo, SP, Academia cristã, p.
283.
[2]
Ibid 284
[3]
Ibid 285
[4]
Ibid 287
[5] MARGUERAT, D., Novo Testamento: história
escritura e teologia., 2009, São Paulo, SP, Ed. Loyola, p. 58.
[6]
Ibid. p. 59.
[7]
Ibid. p. 59.
[8]
Ibid. p. 60,61.
[9]
Ibid. p. 61, 62.
[10] Ibid.
p. 62.
