sábado, 10 de outubro de 2020

Inclusio: a moldura perfeita para uma obra de arte

Nos estudos bíblicos, o inclusio é um dispositivo literário baseado em um princípio concêntrico, também conhecido como bracketing ou uma estrutura de envelope, que consiste em criar um quadro colocando material semelhante no início e no final de uma seção, embora esse material deva consistir em uma palavra ou frase ou se uma quantidade maior de texto também se qualifica e qual o comprimento da seção de quadros seja, são assuntos de algum debate. Inclusio é encontrado em várias fontes, antigas e novas. O objetivo de um inclusio pode ser estrutural - para alertar o leitor sobre um tema particularmente importante - ou pode servir para mostrar como o material dentro do inclusio se relaciona com o próprio inclusio. 

Repare como Lucas faz uso do inclusio sobre o crescimento e sabedoria de Jesus:

Crescia o menino e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele.

Ora, anualmente iam seus pais a Jerusalém, para a Festa da Páscoa. Quando ele atingiu os doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa. Terminados os dias da festa, ao regressarem, permaneceu o menino Jesus em Jerusalém, sem que seus pais o soubessem. Pensando, porém, estar ele entre os companheiros de viagem, foram caminho de um dia e, então, passaram a procurá-lo entre os parentes e os conhecidos; e, não o tendo encontrado, voltaram a Jerusalém à sua procura. Três dias depois, o acharam no templo, assentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. E todos os que o ouviam muito se admiravam da sua inteligência e das suas respostas. Logo que seus pais o viram, ficaram maravilhados; e sua mãe lhe disse: Filho, por que fizeste assim conosco? Teu pai e eu, aflitos, estamos à tua procura. Ele lhes respondeu: Por que me procuráveis? Não sabíeis que me cumpria estar na casa de meu Pai? Não compreenderam, porém, as palavras que lhes dissera. E desceu com eles para Nazaré; e era-lhes submisso. Sua mãe, porém, guardava todas estas coisas no coração.


 E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens.

 (Lc 2.40-52 ARA)

terça-feira, 7 de abril de 2020

O Êxodo de Abrão e Sarai como prolepse de um marco fundante: Gn 12.10-13.1a


A prolepse constitui uma figura de estilo mediante a qual se adianta o enunciado de um epíteto, um argumento ou uma ação, como se já tivesse ocorrido a circustância que lhe diz respeito e que necessariamente os precederia[1]. Há dois tipos de prolepse: um é ligado ao tempo da narrativa. O outro ocorre quando um orador responde previamente uma eventual objeção como em Jr 7. 4.
No caso de Abrão e Sarai o que temos é uma prolepse ligada ao tempo da narrativa, muito parecido com o que ocorre nos evangelhos[2].
O êxodo é o marco fundante da religião de Israel e de seu povo e por isso a prolepse acontece logo no início da chamada de Abrão com o texto narrativo e mais tarde ela volta quando o pensamento de Deus é revelado pelo autor ao Abrão dormente aos seus ouvintes/leitores em Gn 15. 13, 14.

Pontos de contato

Os pontos narrativos de contato são:
·         Fome e ida ao Egito
·         sofrimento
·         punição
·         liberdade
·         bens adquiridos
Fome é o que leva Abrão ao Egito e também Jacó e todo seu clã familiar. O sofrimento de Sarai nas mãos de Faraó é representado no amargor da escravidão do povo. A punição divina com pragas é novamente apresentada pelas pragas no Egito. A liberdade é adquirida mediante punições. Bens são doados a Abrão e ao povo para que fossem embora o mais presto possível.
A prolepse tem a função de fazer com que o leitor/ouvinte tenha sempre na memória pontos muito importantes numa metanarrativa.



[1] MOISÉS, M. Dicionário de termos literários, 5ª ed., 1988, p.417, 18, Editora Cultrix.
[2] Nos evangelhos, a narrativa da paixão é sempre antecipada por Jesus em seus discursos e ensinamentos (Mc 8.31).