segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

MATEUS

 


O EVANGELHO DE MATEUS

 

O evangelho segundo Mateus ocupa um lugar privilegiado na literatura cristã antiga. E o mais citado pelos Padres da Igreja, não somente entre os evangelhos, mas também entre todos os outros livros do Novo Testamento1. Além disso, e embora haja numerosas variações na ordem dos evangelhos nas listas ou códices antigos de que dispomos, Mateus em primeiro lugar é um dado constante.

Entre as razões que explicam esse lugar especial, é preciso sublinhar que Mateus foi por muito tempo considerado o mais antigo dos evangelhos, de modo particular pela influência de Santo Agostinho; essa opinião não é mais compartilhada hoje.[1]

 

AUTORIA

 

A tradição que faz do apóstolo Mateus (Mt 10,3, cf 9,9) o autor do primeiro evangelho baseia-se no testemunho de Papias reportado por Eusébio (História eclesiástica 111, 39,16): Ματθαίος μέν ουν 'Εβραίδι διαλέκτω τα συν τάξατόήρμήν6υσ6ν δ’αύτά ώς ήν δυνατός 'έκαστος (que se pode traduzir "Mateus reuniu, então, em língua hebraica os logia [de Jesus] e cada um os interpretou conforme era capaz”). O comentário de Papias não se baseia, entretanto, em nenhuma informação histórica sólida; não existe, particularmente, traço nenhum de uma versão aramaica antiga do evangelho de Mateus. Além disso, seria muito surpreendente que uma testemunha ocular (no caso, o discípulo Mateus) utilizasse uma fonte secundária (o evangelho de Marcos) para redigir seu próprio relato.[2] A maioria dos exegetas pensa que o autor seja de origem judaica (critérios: caráter central da Lei; importância das citações do AntigoTestamento; limitação da missão do Jesus terreno a Israel; cf igualmente Mt 24,20; 17,21-27; 23,1-3...). A hipótese mais correntemente admitida é que o autor do primeiro evangelho viveu no fim do primeiro século. Cinco argumentos para essa datação: a) Mateus utiliza Marcos (datado por volta de 70) como fonte; b) a imagem do judaísmo que ele transmite é a de um bloco unido em torno dos fariseus (reflete o judaísmo posterior a 70 com o qual Mateus se viu confrontado); c) a multiplicação da expressão “sinagoga deles” (4,24; 9,35; 10,17; 12,9; 13,54; 23,34) ao falar dos judeus (índice de uma separação consumada entre a comunidade mateana e a sinagoga dos fariseus); d) a alusão às perseguições, que reflete uma situação do fim do primeiro século (ver particularmente 10,16-42); e) a possível alusão à destruição de Jerusalém em 70 (cf 22,7; ver igualmente 23,38).[3]

 

MATEUS E A TRADIÇÃO JUDAICA

 

A leitura do evangelho de Mateus permite constatar a onipresença das tradições herdadas do judaísmo antigo. O enraizamento veterotestamentário do primeiro evangelho é, a esse respeito, muito significativo: a abundância de citações de cumprimento (1,23; 2,15.17.23; 3,3 (?); 4,14; 8,17; 12,17; 13,14(?).35; 21,4; 26,54.56 (?); 27,9) que salpicam a narração é uma prova manifesta do interesse marcante do evangelista por suas raízes judaicas. Significativa também é a constante preocupação com a questão do status e do lugar da Lei (particularmente em 5,17-20), juntamente com a da prática da justiça (3,15; 5,6.10.20; 6,1.33; 21,32).[4]

Em contraponto com o que acaba de ser dito, tem fundamento, também, sustentar que Mateus é igualmente um polemista virulento contra os representantes oficiais do judaísmo, até mesmo contra o povo judeu em seu conjunto. Basta lembrar, aqui, quatro áreas da narração mateana nas quais se desenvolve essa polêmica: a) as numerosas controvérsias de Jesus com as autoridades judaicas e especialmente com os fariseus (9,9-17; 9,34; 12,1-14; 12,22- 32; 12,38-42; 15,1-20; 16,1-4; 19,1-9; 21,23-27; 22,15-22; 22,23-33; 22,41-45); b) a utilização polêmica de certas passagens do Antigo Testamento (13,14-15; 15,8-9; 23,38; 27,9-10); c) as repetidas invectivas, e de uma violência rara, de Mateus 23 (particularmente as sete maldições dos vv. 13 ss.; cf, p. ex. o v. 33: “Serpentes, crias de víboras, como poderieis escapar do castigo da geena?”); d) enfim, certas tradições próprias de Mateus, no relato da Paixão, que reforçam a culpabilidade de Israel na morte de Jesus. Lembremos, especialmente, Mateus 27,3-10, 27,24-25 ou ainda 28,11-15.[5]

 

 

DATA E DESTINATÁRIOS

 

Do que precede, deduz-se que o auditório a que se dirige Mateus é provavelmente uma comunidade de maioria judeu-cristã, que vive na Síria (talvez em Antioquia), no último quarto do primeiro século (a redação do evangelho pode ser situada entre 80 e 90). Ela tem sua origem nas comunidades palestinas e hierosolimitas de antes de 70, compostas de judeus que reconheceram em Jesus o Messias de Israel. Por isso, é para Israel que esses discípulos de Jesus se sentem, antes de tudo, enviados, encarregados por Deus de convidá-lo a reconhecer seu Messias. O traumatismo causado pelo fracasso dessa missão foi agravado pela perseguição, da parte da Sinagoga, e pela migração do grupo para a Síria, depois da destruição de Jerusalém e do Templo em 70. Na Síria, em contato com os pagão-cristãos, essa comunidade de origem judeu-cristã é levada a alargar suas perspectivas teológicas: o Evangelho se dirige a todas as nações sem distinção e independentemente de uma pertença ao povo de Israel.[6]



[1][1] Novo testamento: história, escritura e teologia, pág. 81.

[2][2] Op. Cit. Pág. 88.

[3] Op. Cit. Pág. 89.

[4] Op. Cit. Pág. 89.

[5] Op. Cit. Pág. 89.

[6] Op. Cit. Pág. 91